Flávio Bolsonaro: de quase presidente à fuga pela porta dos fundos
Há poucos dias, Flávio Bolsonaro (PL) falava quase em tom presidencial, confiante de que venceria as eleições e seguiria os passos do pai no poder, o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022).
Seu sonho foi por água abaixo no domingo (25), ao perder o segundo turno para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra todas as expectativas em uma virada inédita na história do Brasil.
O senador fugiu para os Estados Unidos, apesar de ter jurado que não faria isso e de estar proibido de deixar o país.
Flávio Bolsonaro, de 45 anos, buscou refúgio na terra de Donald Trump, aliado de sua família, acompanhado da esposa e das duas filhas.
Desembarcou nesta quarta-feira (28) na Flórida, em um voo procedente da Argentina que fez escala no Equador. O governo americano afirmou que lhe concederá um visto.
"Não vou desistir do meu Brasil", havia afirmado, no entanto, na noite da eleição, sem reconhecer sua derrota para o presidente Lula.
O senador alegou que a Justiça havia favorecido Lula e afirmou que pediria a anulação das eleições.
Depois de vencer o primeiro turno, Flávio era o favorito e já falava como se fosse presidente eleito. Ele chegou a telefonar para o presidente colombiano, o direitista Abelardo de la Espriella, para pedir "ajuda" no combate ao narcotráfico assim que assumisse o poder.
O presidente nacional do seu partido, PL, Valdemar Costa Neto, contrariou o candidato derrotado e reconheceu a vitória do presidente Lula ainda na segunda-feira (26).
- Jair, sua 'bússola' -
Quando seu pai, preso por tentativa de golpe de Estado, o escolheu como candidato há menos de um ano, Flávio era pouco conhecido pelos brasileiros.
No entanto, conseguiu manter a sólida base eleitoral do ex-presidente e conquistar outros eleitores que rejeitavam o estilo mais radical do pai.
O senador se presentou como uma alternativa de "mudança" a Lula, que governará o Brasil pela quarta vez, e concentrou seu discurso no combate ao crime, na redução de impostos e na conquista do eleitorado feminino.
Flávio afirmou que, assim que chegasse ao poder, concederia um indulto ao pai, sua "bússola", condenado a 27 anos de prisão por tentar um golpe de Estado após perder as eleições para Lula em 2022.
"Vocês verão Jair Messias Bolsonaro colocar a faixa de presidente da República no filho dele", havia anunciado Flávio durante a campanha.
Seu pai também não reconheceu a derrota em 2022 e viajou para os Estados Unidos às vésperas da posse de Lula, para não lhe passar a faixa presidencial. Voltou três meses depois.
- Escândalos -
Flávio é o mais velho dos cinco filhos de Jair Bolsonaro e o que mais se parece fisicamente com o pai.
Seus irmãos Carlos (PL-SC) e Jair Renan (PL-SC) foram eleitos para o Congresso, assim como sua madrasta, Michelle (PL-DF).
Casado com a dentista Fernanda, Flávio é pai de duas meninas e, como evangélico, cultiva uma imagem de homem devoto. Costuma usar terno e óculos de armação fina, embora tenha vestido frequentemente a camisa da Seleção brasileira durante a campanha, como fazia seu pai.
Flávio iniciou a vida profissional aos 19 anos quando assumiu um cargo comissionado de assistente técnico de gabinete na liderança do então Partido Progressista Brasileiro (PPB) na Câmara dos Deputados, partido pelo qual seu pai havia sido eleito para o terceiro mandato.
Formado advogado, estreou na política aos 21 anos, como deputado estadual do Rio de Janeiro, onde nasceu.
Em 2016, perdeu a disputa pela prefeitura da capital fluminense.
Sua imagem de homem íntegro foi manchada por escândalos, alguns dos quais são investigados pela Justiça.
Seus críticos apontam supostas ligações com as milícias do Rio de Janeiro, grupos paramilitares que controlam bairros populares, acusação que ele nega.
Quando era deputado estadual, também foi acusado do esquema de rachadinha - desvio de parte dos salários de seus assessores -, embora o caso tenha sido arquivado.
A acusação mais grave veio à tona durante a campanha, quando foi revelado que ele era investigado por corrupção e lavagem de dinheiro relacionados ao filme "Dark Horse", sobre seu pai, que ainda não estreou.
A Justiça também investiga se Flávio lavou dinheiro junto com seu amigo, o advogado Willer Tomaz, caso pelo qual estava proibido de deixar o país.
Sua ida aos Estados Unidos também parece seguir os passos do irmão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado que vive em solo americano e também é alvo de investigações da Justiça brasileira.
A partir de fevereiro, Flávio Bolsonaro ficará sem cargo público pela primeira vez em mais de 20 anos. Seu mandato de oito anos como senador termina no fim de janeiro, quando perderá o foro por prerrogativa de função.
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