Uma Copa do Mundo gigante construída em três países às custas do meio ambiente
Organizada em três países, com mais seleções participantes (48) e mais partidas do que nunca (104), a Copa do Mundo da América do Norte é o exemplo do frenesi de crescimento da Fifa, que faz ouvidos moucos às críticas sobre o impacto ambiental do torneio.
Segundo uma pesquisa em andamento da Universidade de Lausanne (Unil), na Suíça, sobre o impacto ambiental dos grandes eventos esportivos, a Copa do Mundo organizada por México, Estados Unidos e Canadá "deve gerar a maior pegada de carbono da história do esporte internacional".
As projeções variam entre 5 e 9 milhões de toneladas de CO2. Em comparação, os Jogos Olímpicos de Paris 2024 geraram "aproximadamente 1,75 milhão de toneladas" de CO2.
"A pegada de carbono dos Jogos Olímpicos diminuiu nas últimas edições; exatamente o contrário do que acontece com a Copa do Mundo masculina da Fifa", resume à AFP David Gogishvili, geógrafo da UNIL.
A Copa do Mundo de 2026 (11 de junho a 19 de julho) também está nos antípodas da edição realizada há quatro anos no Catar, onde toda a competição se concentrou em um raio de 50 km.
Na ocasião, porém, a Fifa foi muito criticada pela construção acelerada de estádios superdimensionados e climatizados para evitar o calor naquele pequeno país do Golfo.
Desta vez, os 16 estádios que receberão a competição já estavam construídos no momento da escolha da sede, ponto destacado em 2018 pela candidatura "United 2026".
- O preço do gigantismo -
Só que, de Vancouver à Cidade do México, passando por Boston, Miami e Los Angeles, as distâncias entre as cidades-sede às vezes ultrapassam 4 mil km.
Isso aumentará a principal fonte de CO2 em eventos internacionais: os deslocamentos aéreos das seleções, dirigentes, meios de comunicação e, sobretudo, dos "mais de 5 milhões de torcedores" esperados pela Fifa.
Incluída na candidatura, a única estimativa oficial do impacto de carbono — 3,7 milhões de toneladas de CO2, um recorde — já ficou defasada, já que o número de partidas do torneio passou de 64 no Catar para 104 na América do Norte.
A Fifa, cujo presidente Gianni Infantino proclamou durante a COP26, em Glasgow, sua "determinação" em lutar contra o aquecimento global, comprometeu-se em 2018 a "medir, reduzir e compensar" as emissões ligadas às Copas do Mundo.
Mas a organização evitou qualquer avaliação ou promessa sobre 2026 desde que foi criticada em junho de 2023 pela Comissão Suíça para a Lealdade (CSL) por ter exaltado a "neutralidade climática" da Copa do Mundo de 2022 sem poder demonstrá-la.
Além do debate técnico sobre quantificação e compensações de carbono, amplamente desacreditadas, há um consenso: a melhor forma de conter o impacto das mega competições é "limitar" sua dimensão, como fez o Comitê Olímpico Internacional (COI) com seu teto de 10.500 atletas para os Jogos de Verão, lembra Gogishvili.
- "Negação ambiental" -
No entanto, ao ampliar seu torneio principal de 32 para 48 seleções, a Fifa faz exatamente o contrário: seu "apetite insaciável por crescimento" provoca mais partidas, mais atletas, mais torcedores, mais voos, mais infraestrutura hoteleira, "um ciclo sem fim", afirma o pesquisador.
Já em fevereiro de 2025, as organizações New Weather Institute e Scientists for Global Responsibility destacaram em um relatório o custo climático de qualquer partida internacional, ou seja, "entre 26 e 42 vezes mais que um jogo de elite" em nível nacional.
"Uma partida de fase final de Copa do Mundo masculina é responsável por entre 44 mil e 72 mil toneladas de CO2 (...), o equivalente às emissões de entre 31.500 e 51.500 automóveis britânicos durante um ano inteiro", apontaram os pesquisadores.
E, longe de se limitar a 2026, "parece que a negação ambiental da Fifa vai continuar", constatou em 2024 Gilles Paché, professor da Universidade de Aix-Marselha, na revista Journal of Management Research.
De fato, a entidade máxima do futebol se superou ao conceder a Copa do Mundo de 2030 a países de três continentes diferentes, com três partidas na América do Sul (Argentina, Uruguai e Paraguai) antes de seguir para a Europa (Espanha e Portugal) e a África (Marrocos).
E a edição de 2034 será organizada na Arábia Saudita, com clima comparável ao do Catar, mas com 40 partidas a mais, enquanto a gigante saudita Aramco, a maior petroleira do mundo, é desde 2024 uma das principais patrocinadoras da Fifa.
P.Batteux--RTC