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EUA improvisa programa de controle das finanças venezuelanas que levanta questionamentos
EUA improvisa programa de controle das finanças venezuelanas que levanta questionamentos / foto: Federico Parra - AFP

EUA improvisa programa de controle das finanças venezuelanas que levanta questionamentos

A rapidez das mudanças na Venezuela após a derrubada do presidente Nicolás Maduro levou Washington a improvisar um programa de controle das finanças públicas do país que suscita questionamentos, segundo o próprio chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, e especialistas.

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"Conseguimos criar um mecanismo de curto prazo (...) segundo o qual as necessidades do povo venezuelano podem ser atendidas", escreveu Rubio na quarta-feira (28), em audiência no Senado.

"Eles nos entregarão um orçamento todos os meses, e nós diremos no que não podem gastar", afirmou, em referência ao governo da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez.

"Eles têm sido muito cooperativos até agora", assegurou.

Depois de atacar a Venezuela em 3 de janeiro para capturar Maduro, o presidente Donald Trump declarou que estava "no comando" do país e da gestão de sua indústria petrolífera.

Um ensaio de "microgestão" das finanças de uma nação de 30 milhões de habitantes, maior que o Texas, é algo inédito para os Estados Unidos na região.

Como etapa preliminar, Washington utilizou sua principal arma: o bloqueio de navios petroleiros sancionados, que rapidamente dobrou a escassa resistência de Caracas.

Esse bloqueio foi decisivo para lançar esse programa "inovador", nas palavras de Rubio, a ponto de que "desde que Maduro foi derrubado, nenhum único navio ilegal se dirigiu à Venezuela", revelou.

Rodríguez declarou publicamente que a Venezuela "não aceita ordens", embora também tenha reconhecido que o país está comprando material dos Estados Unidos com o dinheiro desbloqueado.

- Ceticismo de senadores -

Os senadores que interrogaram Rubio demonstraram ceticismo quanto ao bom uso dos primeiros 300 milhões de dólares (R$ 1,56 bilhão) desbloqueados.

"Será necessário realizar uma auditoria retroativa de como esse dinheiro foi gasto. Mas provavelmente há outros 2,5 a 3 bilhões de dólares (R$ 12,98 bilhões a R$ 15,57 bilhões) a caminho, que serão submetidos a um controle prévio", explicou o secretário de Estado.

Esse esquema também enfrenta outros problemas, reconheceu Rubio.

O dinheiro da venda do petróleo venezuelano está sendo depositado no Catar porque o governo venezuelano enfrenta nos Estados Unidos numerosas ações judiciais de fundos de investimento e empresários, desde a época do falecido presidente Hugo Chávez (1999-2013).

Essa situação deverá mudar em algum momento, para que os recursos sejam depositados em contas sob controle direto do Departamento do Tesouro, assegurou.

- Cooperação "muito boa" -

O presidente Donald Trump anunciou na quinta-feira que suspendia parcialmente o embargo ao petróleo venezuelano, depois que Caracas abriu espaço para o investimento estrangeiro privado com a aprovação de uma reforma da lei de hidrocarbonetos.

Trump também anunciou a reabertura do espaço aéreo venezuelano e reiterou que a cooperação com Rodríguez é "muito boa".

"Temos as grandes companhias petrolíferas a caminho da Venezuela, inspecionando e escolhendo suas localizações, e elas vão trazer de volta uma riqueza tremenda para a Venezuela e para os Estados Unidos", explicou.

"De fato, a Venezuela vai ganhar mais dinheiro do que jamais ganhou", assegurou.

Alguns especialistas se mostram críticos em relação a essa situação.

"Eu diria que não pode haver recuperação [econômica] sem direitos", declarou no recente Fórum de Davos o ex-ministro do Planejamento venezuelano Ricardo Hausmann, atualmente professor de economia política em Harvard.

Essa é a tese defendida pela líder opositora María Corina Machado, que multiplica encontros em Washington e pede, antes de tudo, a libertação dos presos e garantias de direitos políticos.

"É importante ter em conta que o petróleo não é apenas a principal fonte de receitas e divisas do governo; também constitui a principal base de financiamento para a reconstrução do país", explicou à AFP Martín Campos, chefe de pesquisa sobre América Latina do Instituto de Finanças Internacionais.

Caracas não tem outra opção devido a "seu baixo nível de reservas internacionais, a fragilidade de suas finanças públicas e seu elevado nível de endividamento", descreve o especialista.

"Criamos o que esperamos que seja uma transição para um mecanismo que permita vender esse petróleo de maneira normal", afirmou Rubio.

Os Estados Unidos não têm vocação para administrar indefinidamente a economia venezuelana, reiterou.

M.Tran--RTC